Ciência pra quem precisa de ciência

Data:

cienciapraquem

Fatores que geram a crise de replicabilidade em trabalhos científicos

Autor | Jonas Weissmann Gaiarsa

 

O que é ciência que nos ajuda a melhorar o mundo? O método científico se apoia naquilo que é constante no nosso universo. Ou ao menos previsível durante um longo período. 

 

Se é constante ou previsível então podemos reproduzir o mesmo fenômeno e testá-lo repetidamente obtendo sempre os mesmos resultados, ou resultados que variam dentro de um intervalo esperado. 

 

Dessa forma, podemos dizer que a ciência se baseia em repetir experimentos, de forma a comprovar os resultados. Repetir tantas vezes que o intervalo de variação se estreita cada vez mais até podermos predizer com confiança o que pode acontecer. 

 

No entanto, na mecânica atual da produção científica é dado muito mais valor para um novo resultado interessante e não necessariamente para a comprovação de um resultado já conhecido. 

 

É da natureza humana desbravar novas fronteiras, mas nem tanto trilhar caminhos já conhecidos. Dessa forma o investimento e os louros da ciência vão em geral para a ciência de ponta, mas não para a ciência da confirmação, ou dos resultados negativos que também comprovam a teoria. 

 

Há um grande incentivo para produzir ciência de impacto ou ao menos produzir ciência de maneira consistente, com artigos científicos sendo produzidos por número, mas sem necessariamente ter qualidade. 

 

A chamada “salami science”. Ambas formas de produzir ciência não passam pela ciência dos fatos confirmáveis, aquela que busca testar a robustez de trabalhos anteriores. 

 

Digamos que é um luxo obter financiamento de reprodutibilidade (e resultados negativos) em contraste com a demanda por publicar artigos em grandes revistas ou em grande número. 

 

Acabamos exigindo que a confirmação venha da própria ciência de ponta, fazendo com que ela faça dupla jornada e aumentando ainda mais a expectativa e exigência sobre os resultados.

 

Isso gerou o movimento da chamada “crise de replicabilidade”, com pesquisadores que buscam validar resultados de ponta. Um dos mais emblemáticos foi o “Reproducibility Project: Psychology” de 2011, que buscou repetir cerca de 100 trabalhos anteriores. 

 

Ele é emblemático das dificuldades que a área de psicologia, com suas complexidades e interdisciplinaridades, tem para produzir resultados de forma padronizada e consistente. 

 

Dele derivou a iniciativa “Center for Open Science” que busca “aumentar a abertura, integridade e reprodutibilidade da pesquisa científica”.

 

Dessa forma, 2 pesquisadores brasileiros, assim como outras iniciativas anteriores dentro do movimento da “crise de replicabilidade”, buscaram testar um conjunto de resultados de diversas publicações dentro de um período de 2 décadas e chegaram a algumas conclusões interessantes sobre o ônus de produzir resultados repetíveis. 

 

A mais notável é a de que existe uma falta de detalhamento metodológico que foi e deve ser preenchido pelo testador.

 

Ainda que muitas metodologias sejam de conhecimento comum da comunidade científica, a falta de reprodutibilidade acaba recaindo também sobre as revistas científicas, que buscam sempre abreviar a publicação como forma de aumentar o apelo do artigo em tempos de atenção curta e a preferência por ingestão rápida de conteúdos.

 

Por outro lado, os 2 pesquisadores também mencionam a expectativa que se tem da publicações nas áreas de ciências da vida quanto a quantidade e complexidade das técnicas utilizadas. 

 

Em algumas instâncias o resultado produzido se torna tão complexo e demanda tanto tempo de trabalho que os resultados produzidos tendem a cair de qualidade e se tornam mais difíceis de serem reproduzidos.

 

Nem todo trabalho científico precisa ser uma pequena fatia do salame científico, mas em algumas instâncias isso pode vir a satisfazer não só a necessidade de se publicar com frequência, mas também produzir resultados mais consistentes e testáveis.

 

Outro aspecto que afeta a replicação levantado pela comunidade foi a falta de domínio da ciência de dados, especialmente no contexto das boas práticas F.A.I.R. 

 

 

Já falamos aqui do gerenciador de pipelines Snakemake e como ele ajuda a desenvolver, compartilhar e manter procedimentos consistentes de análises de dados.

 

Algumas pessoas têm receio que na onda da cultura do cancelamento essa ideia de dedicar recursos para confirmação científica venha para desbancar pesquisadores. 

 

O trabalho de cientistas do passado, presente e futuro sempre vai  servir para alavancar novas descobertas. Dessa forma, temos que evitar a estigmatização colocada sobre os nomes da ciência que foram eventualmente desmentidos pois também eles contribuíram para o processo científico.

 

Só assim conseguiremos fazer ciência de maneira sustentável, gerando conhecimento e tecnologia que contribuam para um mundo melhor.

 

Já havia se questionado sobre esse tema da reprodutibilidade dentro da ciência? Deixe seu comentário pra gente saber o que achou dessas informações!! 



Saiba mais:

 

Reproducibility: expect less of the scientific paper 

Reproducibility of Scientific Results 

Center for Open Science 

Six factors affecting reproducibility in life science research 

FAIR Principles

 

#ciencia #bioinformatica #divulgaçãocientífica #edutaugc #reprodutibilidade

Última atualização: Sept. 27, 2021, 5:21 p.m.

Posts Relacionados